Salmo 1 - Resistência ao mal
Matthias Grenzer
Os salmos são um patrimônio cultural da humanidade. Com sua beleza literária, fazem parte dos textos poéticos mais bonitos da história do ser humano. Além disso, apresentam a seu público, em forma de louvor e súplica, as esperanças religioso-éticas do Antigo Israel. Por isso os salmos continuam sendo um dos elementos constitutivos na oração de judeus e cristãos, pois os dois povos bíblicos, em vista de seus anseios e de suas expectativas de vida, afirmam encontrar consolo e conforto nesses textos.
No entanto, por mais que os salmos, de forma repetida, sejam rezados, cantados e meditados, percebe-se uma certa distância cultural entre o homem moderno e o salmista. A linguagem poético-metafórica, as tradições mosaico-proféticas como fundamento religioso e as circunstâncias político-econômicas do Antigo Israel criam obstáculos na busca do sentido original dessas orações bíblicas. Vê-se, dessa forma, que a meditação dos salmos, ou seja, a descoberta dos modelos de fé e de comportamento contidos nesses textos, quer ser acompanhada por um sério estudo literário-histórico. Há de se entrar numa dinâmica, na qual a oração se torna estudo e vice-versa, para depois viver e conviver melhor.
A fim de apoiar esse processo, Paulinas Editora lançou a coleção Contemplar os salmos. Foram convidados estudiosos da área de Sagrada Escritura para comentarem os 150 Salmos, um por um. O primeiro volume já está à venda: Matthias Grenzer, Salmo 1: prazer com o ensino de Iahweh. Em breve, Paulinas Editora lançará o comentário de outro salmo: Walter Eduardo Lisboa: Salmo 22: o drama da fé autêntica.
Veja, aqui, um trecho do livro Salmo 1, no qual o autor interpreta o primeiro versículo do Sl 1:
Resistência ao mal
1a Feliz o homem
1b que não andou conforme o conselho dos ímpios,
1c não parou no caminho dos pecadores
1d e não se sentou no assento dos zombadores.
O início do Salmo 1 caracteriza-se pela presença numerosa de pessoas más. O texto menciona ímpios, pecadores e zombadores. Não se trata de desconhecidos, pois diversos outros textos bíblicos falam deles.
O ímpio, nas tradições da Sagrada Escritura, é quem mostra um comportamento negativo, no sentido de desfavorecer a comunidade. É aquele que, por meio de suas palavras e/ou de seus atos, se torna culpado, ameaçando a vida de inocentes. Isso porque o ímpio trama contra o justo, [...] a fim de fazer cair o oprimido e o pobre, ou seja, para degolar os homens retos (Sl 37,12.14).
Além disso, seja lembrado que, na cultura do Antigo Israel — assim como em todo o Antigo Oriente —, não existe oposição entre a vida profana e a vida religiosa da pessoa. Portanto, o comportamento em relação ao próximo influencia a relação com Deus. O paralelismo criado entre ímpios e pecadores (cf. v. 1b.c) reforça essa compreensão da realidade. Em geral, as tradições do Antigo Testamento qualificam a falta de solidariedade com os mais necessitados como pecado, avaliando essa postura como um ato condenável pelo Deus Iahweh.
A terceira palavra que ajuda a criar o paralelismo nos meios-versículos 1b.c.d descreve os maus como zombadores. Nos textos paralelos, os zombadores aparecem como pessoas arrogantes que agem no ardor de sua insolência (Pr 21,24). Responsáveis por rixas, litígios e humilhações, agitam a cidade (cf. Pr 22,10; 29,8). Conseqüentemente, o zombador não anda com os sábios (Pr 15,12). Pelo contrário, quem tenta corrigir um zombador, apenas receberá humilhação e ódio como reação dele (cf. Pr 9,7-8).
A crítica do Salmo 1 à sociedade, porém, vai ainda mais longe. Além de caracterizar os malvados como ímpios, pecadores e zombadores, o poeta deixa claro que essa gente age de forma planejada. A palavra hebraica conselho (cf. v. 1b) poderia ser traduzida também por estratégia, desígnio, projeto ou idéia. Quer dizer, os maldosos atuam de forma consciente. Seus crimes são altamente qualificados.
Outras duas imagens ainda marcam a descrição das pessoas más no primeiro versículo. A metáfora do caminho (cf. v. 1c) parece reforçar a idéia de que a atuação de tais pessoas inclui processos históricos mais abrangentes. A imagem do assento (cf. v. 1d), por sua vez, lembra o assento do rei (1Sm 18,25) ou dos chefes mais proeminentes numa cidade (cf. Jó 29,7.25). Quer dizer, traz-se à memória o lugar de honra e, com isso, a posição decisiva e influente que alguém pode ocupar numa sociedade.
Resumindo: o início do Salmo 1 deixa perceber uma situação em que um grande número de pessoas más — ímpios, pecadores e zombadores — chega a dominar a vida da sociedade.
Não obstante, em oposição a toda essa gente decidida a promover o mal, encontra-se uma única pessoa que o poeta chama de homem feliz (cf. v. 1a). Este se mostra resistente. Um triplo não (cf. v. 1b.c.d) marca sua postura. Em todas as situações de sua vida — quer dizer, andando (v. 1b), parado, ou, literalmente traduzido, estando de pé (v. 1c), e sentado (v. 1d) — não faz companhia a seus conterrâneos que optaram por outros caminhos e assentos.
Por outro lado, porém, esse homem feliz e justo (cf. v. 6a) está sozinho. Fala-se dele no singular. Parece que “sua decisão de vida o transformou em uma raridade” 1. Nasce, assim, a dúvida sobre sua sobrevivência. Com outras palavras: como alguém pode se manter como pessoa, quando está decidido a abandonar o “mundo”, ou seja, quando se opõe aos valores negativos que, muitas vezes, dominam a convivência na sociedade? O Salmo 1, assim como o conjunto dos 150 Salmos, parece ter sido composto para consolar e, sobretudo, motivar (!) esse tipo de gente.
[1] LOHFINK, Norbert. Die Einsamkeit des Gerechten, p. 165.