Guerra e condição humana: o fator Religião
Afonso Maria Ligorio Soares
Passaram alguns anos desde os dramáticos acontecimentos do Onze de Setembro. Muito da poeira já abaixou, mas não é difícil identificar, aqui e ali, sulcos mais ou menos profundos deixados pelo bárbaro espetáculo. E todos confluem para os vínculos entre religião e violência. Afinal, em todos os grandes sistemas religiosos podem ser percebidas relações perigosas entre cultos religiosos e o culto à violência. René Girard desvendou a contento a dimensão sacrificial da religião, exemplificada na antiga prática israelita do bode expiatório. O cristianismo só fez trocar o bode pelo cordeiro imolado (Jesus de Nazaré) que, morrendo na cruz por toda a humanidade, redimiu-a através da violência que suportou em seu lugar. Não faltam livros que se inspiram nesse mote, desde o provocativo deus-suicida de Cristo, escrito por Jack Miles, até o excelente ensaio de James Allison sobre O retorno de Abel, onde o autor desenvolve a idéia girardiana de que a vítima inocente, reconhecida e pregada como tal, implode a necessidade da violência simbólica, sublimada, e inaugura, aí sim, o reinado (escatológico) de Deus. Se Allison (e Girard) estiver(em) certo(s), só pode compactuar com a violência um cristianismo que (ainda) não entendeu o núcleo central de seu mito fundador.
Seja como for, é inegável que a luta entre o bem e o mal (zoroastrismo, apocalíptica judaica e cristã, etc.) se revele como combustível da violência de origem religiosa. A identificação com o (princípio do) bem tem gerado, ao longo dos séculos, conflitos bélicos de diferentes grandezas e implacáveis conquistas coloniais. Em nome da defesa da fé ortodoxa, e contra as chamadas heresias, inquisições e congêneres não deixaram nenhuma saudade no ocidente.
Mas os exemplos não são exclusividade da religião cristã, que, neste ponto, foi fiel a suas origens judaicas. “Nada da violência humana está ausente da Bíblia”, afirma André Wénin. “Ou melhor, aí Deus está misturado com ela e, muitas vezes, como ator”. Fechando a tríade monoteísta, também o islamismo, quando insiste mais na justiça do que no amor, deixa entreaberta a porta para que grupos se revistam dos atributos desta justiça para lançar mão da violência.
Mesmo entre as milenares tradições hinduístas não se vê apenas ahimsa ( o preceito de não causar o mal; a não-violência). Os Rig-Veda mencionam sacrifícios e falam de reis que apelam aos deuses para que lhes dêem vitória. A lei de Manu diz que o brâmane tem direito à defesa violenta de sua posição superior; pois, a obteve em vidas anteriores. O Bhagavad Gita garante que é legítimo matar na guerra; pois, a alma é imortal. Já o budismo é, talvez, a tradição de melhor reputação neste tema, embora não descarte responder à violência com outra violência.
Hoje, há vários conflitos em que a religião está, de algum modo, implicada. Por exemplo, no Sri Lanka segue firme (e violento) o embate de identidades entre a cingalesa budista e a tâmil nacionalista; na Índia, enfrentam-se hindus “fundamentalistas” e muçulmanos, além das castas superiores contra os dalits (intocáveis); nos tristemente famosos massacres de Ruanda, parece que boa parte do clero católico esteve implicada; na Irlanda, os ventos do diálogo ecumênico ainda não sopraram; quanto ao Oriente Médio, nem precisamos nos delongar no conflito Israel X Islã; e na América Latina, conhecidos levantes de grupos de pressão populares ostentam nítida motivação religiosa em suas ações (Nicarágua sandinista, Chiapas, MST, comunidades eclesiais de base) – embora há que se distinguir bem o grau de violência preconizado pelos líderes de tais “lutas”.
Por tudo o que se viu até aqui, é forçoso concluir que a violência religiosa é ineludível? Como diz H. Häring, afirmar que “a religião leve necessariamente à violência é tão unilateral quanto supor que o cristianismo e outras tradições similares levem necessariamente à paz”. As conexões, como se pode deduzir, são complexas. A religião só conduz à violência quando combinada com outros fatores (conquistas imperiais, escassez, invasão territorial e cultural, racismo, fundamentalismo, etc.). Mais: há sinais de esperança nas utopias dessas mesmas religiões. Sobre isso falaremos na semana que vem.