Salmo 22 - O drama da fé autêntica
Walter Eduardo Lisboa
O Salmo 22 é uma das orações de Israel que parece contrariar certas idéias pré-concebidas sobre Deus e sobre o ser humano. Sobre Deus porque - onipotente e bondoso - permanece demasiado silencioso diante da dor, colocando seu amigo "no pó da morte" antes de lhe responder. Sobre o ser humano - imagem do bom Deus - porque pode revelar-se uma besta selvagem para seu irmão!
Precisamente porque alguns de seus versos parecem confirmar-se na pessoa de Jesus de Nazaré, a maioria dos comentaristas cristãos através dos séculos viu neste salmo uma profecia direta da paixão do messias. Mas também a exegese dos rabinos de Israel reconheceu no salmo a descrição da paixão do povo escolhido, continuamente torturado e morto, mas também continuamente restituído à vida.
Estamos, portanto, diante de um poema religioso que estimula variadas interpretações, as quais parecem encontrar seu fundamento na própria linguagem utilizada pelo salmista, rica em imagens, símbolos, evocações, provocações.
O comentário fornece importantes elementos que permitem conhecer melhor o pano de fundo em que o salmista se moveu, os valores religiosos e éticos que alimentavam sua personalidade, seu modo de perceber, sentir, crer. Desta maneira, o leitor poderá rezar o salmo, fazê-lo seu, atualizá-lo, encontrando ressonâncias no seu próprio universo cultural e de fé.
Veja, aqui, um trecho do livro Salmo 22, no qual o autor interpreta os versículos 2-3:
O rumor do silêncio
2 Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?
Longe da minha salvação (estão) as palavras de meu rugido.
3 Meu Deus, de dia grito e não respondes,
de noite, e não encontro repouso.
Nosso salmo começa com um grito, mistura de incompreensão, dor, impotência, lamentação. O orante se dirige a Deus, seu Deus, sem rodeios, sem apresentações. Não tem tempo para isso. O peito oprimido, a garganta seca, e uma pergunta que não quer calar: "por que me abandonaste?". E ainda mais, mesmo que o procure, seu Deus parece esconder-se, calar-se. Por que tudo isso? Faz parte de um castigo merecido ao salmista? Trata-se de um desafogo exagerado do poeta?
Para tentar compreender em parte a situação descrita aqui vamos abrir a poesia ao grande contexto da fé de Israel.
Primeiramente devemos lembrar que essa proximidade familiar entre Deus e Israel (presente e representado aqui na voz do salmista) tem sua origem na aliança promovida pelo próprio Iahweh, já nos tempos de Abraão (cf. Gn 12,1-3) mas ratificada de forma portentosa no êxodo do Egito, da "casa de escravidão" (cf. Ex 13,3), e de forma inabalável no Sinai (cf. Ex 19,5-6). Uma relação que encontra no livro do Cântico dos Cânticos sua formulação plástica talvez mais precisa: a de dois amantes apaixonados (inclusive ali temos também uma busca angustiosa, porém esperançosa).
Também sabemos que esse tipo de relação esteve sempre ameaçado de inconstância e infidelidade. Especialmente esta última é lembrada pela maioria dos profetas desse mesmo povo, cujos "amores desviados" são julgados por Iahweh como abandono da aliança (cf. por ex. Ez 20). E pela mesma razão, as vicissitudes negativas na história do povo - especialmente a perda da independência política perante impérios estrangeiros , foram vistas como castigo merecido, mas nunca como final definitivo da relação. A possibilidade de sua reconstituição, baseada na fidelidade de Iahweh, sempre foi uma marca indelével na esperança de Israel.
Em nosso salmo, precisamente esta esperança parece estar sendo ameaçada. O que aflige o salmista não é a presença de uma punição, de uma repreensão, mas a ausência injustificada do ser amado que é sentida como abandono ("estás longe de mim"). E acrescentado a isso, um persistente silêncio - desse Deus que se define como "palavra" - sentido como absoluto ("dia e noite"). O seu Deus, seu criador, seu par, teima em não se manifestar. O grito angustiante ecoa em silêncios intermináveis. É a perfeita imagem daquilo que alguns místicos chamam "a noite da fé". Estamos diante do ato maduro da fé, isto é, de uma fé honesta, que não teme questionar sua nudez e que sabe que "brigar" com Deus só pode trazer benefícios para seu crescimento (cf. a luta de Jacó em Gn 32,25ss).
Este "por que?" é muito recorrente no livro dos Salmos, talvez porque harmonizado em um contexto de oração é uma pergunta de alguém que espera confiantemente ser atendido (cf. Sl 10,1; 44,24; 74,1. Nos Sl 79,5; 80,5; 89,47 a pergunta é "Até quando?"). O tom desta pergunta pode ser deduzido do adjetivo usado no segundo estico do versículo: "palavras rugientes". O rugido - próprio de animais como o leão (que aparece como figura do inimigo no v. 14) - dá uma idéia de clamor feroz, de alguém que tenta "ganhar no grito". Também é som desarticulado, que não argumenta, mas quer mostrar quiçá uma ferida aberta. De qualquer maneira, é a questão que coloca em movimento todo um processo de rememoração histórica, e que desembocará em hino de louvor.