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Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture
Edição nº 01 - Ano I - Julho/ Agosto/ Setembro 2005
NAS FONTES DA BÍBLIA
   

Salmo 22 - O drama da fé autêntica


Walter Eduardo Lisboa


         O Salmo 22 é uma das orações de Israel que parece contrariar certas idéias pré-concebidas sobre Deus e sobre o ser humano. Sobre Deus porque - onipotente e bondoso - permanece demasiado silencioso diante da dor, colocando seu amigo "no pó da morte" antes de lhe responder. Sobre o ser humano - imagem do bom Deus - porque pode revelar-se uma besta selvagem para seu irmão!

         Precisamente porque alguns de seus versos parecem confirmar-se na pessoa de Jesus de Nazaré, a maioria dos comentaristas cristãos através dos séculos viu neste salmo uma profecia direta da paixão do messias. Mas também a exegese dos rabinos de Israel reconheceu no salmo a descrição da paixão do povo escolhido, continuamente torturado e morto, mas também continuamente restituído à vida.

         Estamos, portanto, diante de um poema religioso que estimula variadas interpretações, as quais parecem encontrar seu fundamento na própria linguagem utilizada pelo salmista, rica em imagens, símbolos, evocações, provocações.

         O comentário fornece importantes elementos que permitem conhecer melhor o pano de fundo em que o salmista se moveu, os valores religiosos e éticos que alimentavam sua personalidade, seu modo de perceber, sentir, crer. Desta maneira, o leitor poderá rezar o salmo, fazê-lo seu, atualizá-lo, encontrando ressonâncias no seu próprio universo cultural e de fé.


         Veja, aqui, um trecho do livro Salmo 22, no qual o autor interpreta os versículos 2-3:

         O rumor do silêncio

         2 Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?
         Longe da minha salvação (estão) as palavras de meu rugido.
         3 Meu Deus, de dia grito e não respondes,
         de noite, e não encontro repouso.

         Nosso salmo começa com um grito, mistura de incompreensão, dor, impotência, lamentação. O orante se dirige a Deus, seu Deus, sem rodeios, sem apresentações. Não tem tempo para isso. O peito oprimido, a garganta seca, e uma pergunta que não quer calar: "por que me abandonaste?". E ainda mais, mesmo que o procure, seu Deus parece esconder-se, calar-se. Por que tudo isso? Faz parte de um castigo merecido ao salmista? Trata-se de um desafogo exagerado do poeta?

         Para tentar compreender em parte a situação descrita aqui vamos abrir a poesia ao grande contexto da fé de Israel.

         Primeiramente devemos lembrar que essa proximidade familiar entre Deus e Israel (presente e representado aqui na voz do salmista) tem sua origem na aliança promovida pelo próprio Iahweh, já nos tempos de Abraão (cf. Gn 12,1-3) mas ratificada de forma portentosa no êxodo do Egito, da "casa de escravidão" (cf. Ex 13,3), e de forma inabalável no Sinai (cf. Ex 19,5-6). Uma relação que encontra no livro do Cântico dos Cânticos sua formulação plástica talvez mais precisa: a de dois amantes apaixonados (inclusive ali temos também uma busca angustiosa, porém esperançosa).

         Também sabemos que esse tipo de relação esteve sempre ameaçado de inconstância e infidelidade. Especialmente esta última é lembrada pela maioria dos profetas desse mesmo povo, cujos "amores desviados" são julgados por Iahweh como abandono da aliança (cf. por ex. Ez 20). E pela mesma razão, as vicissitudes negativas na história do povo - especialmente a perda da independência política perante impérios estrangeiros  [1] , foram vistas como castigo merecido, mas nunca como final definitivo da relação. A possibilidade de sua reconstituição, baseada na fidelidade de Iahweh, sempre foi uma marca indelével na esperança de Israel.

         Em nosso salmo, precisamente esta esperança parece estar sendo ameaçada. O que aflige o salmista não é a presença de uma punição, de uma repreensão, mas a ausência injustificada do ser amado que é sentida como abandono ("estás longe de mim"). E acrescentado a isso, um persistente silêncio - desse Deus que se define como "palavra" - sentido como absoluto ("dia e noite"). O seu Deus, seu criador, seu par, teima em não se manifestar. O grito angustiante ecoa em silêncios intermináveis. É a perfeita imagem daquilo que alguns místicos chamam "a noite da fé". Estamos diante do ato maduro da fé, isto é, de uma fé honesta, que não teme questionar sua nudez e que sabe que "brigar" com Deus só pode trazer benefícios para seu crescimento (cf. a luta de Jacó em Gn 32,25ss).

         Este "por que?" é muito recorrente no livro dos Salmos, talvez porque harmonizado em um contexto de oração é uma pergunta de alguém que espera confiantemente ser atendido (cf. Sl 10,1; 44,24; 74,1. Nos Sl 79,5; 80,5; 89,47 a pergunta é "Até quando?"). O tom desta pergunta pode ser deduzido do adjetivo usado no segundo estico do versículo: "palavras rugientes". O rugido - próprio de animais como o leão (que aparece como figura do inimigo no v. 14) - dá uma idéia de clamor feroz, de alguém que tenta "ganhar no grito". Também é som desarticulado, que não argumenta, mas quer mostrar quiçá uma ferida aberta. De qualquer maneira, é a questão que coloca em movimento todo um processo de rememoração histórica, e que desembocará em hino de louvor.


[1] Em 722 a.C., a queda de Samaria (capital do reino do Norte) perante o rei assírio Sargão II foi seguida da deportação de sectores de população israelita a outras áreas do império (cf. 2Rs 17,5s). Em 586 a.C., depois da conquista do reino do Sul pelo rei babilônico Nabucodonosor, parte da população judaica foi deportada em cativeiro para Babilônia. Especialmente este exílio (que termina em 538 a.C.; cf. Esd 1,1-4) marca uma divisão epocal na história do Israel bíblico.

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