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Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture
Edição nº 02 - Ano I - Outubro/ Novembro/ Dezembro 2005
NAS FONTES DA BÍBLIA
   

Aproveito esta coluna para apresentar uma nova pesquisa minha, a qual abrirá, no início de dezembro de 2006, a coleção "Exegese" de Paulinas Editora: Análise poética da sociedade. Um estudo de Jó 24.
Entre as tradições bíblicas que se preocupam com a vida dos pobres, destaca-se sobremaneira Jó 24. Marcada por sua experiência pessoal de sofrimento e injustiça, a figura central do livro de Jó chega a promover, na segunda parte de seu oitavo discurso, a descrição provavelmente mais abrangente da miséria dos pobres que se encontra em toda a Bíblia. De forma poética, apresenta, por primeiro, as violências sofridas pelos pobres, para descrever, em seguida, o destino deles na vida e na morte. Acrescenta-se ainda uma avaliação da gravidade dos delitos cometidos pelos criminosos. Dessa forma, o texto causa a impressão de ser uma análise poética da sociedade que olha, sobretudo, para a situação dos mais necessitados.
O estudo avança junto ao texto bíblico de Jó 24. Tenta descrever as técnicas poético-literárias usadas pelo autor, assim como os avanços na parte do conteúdo.(1) Em contrário a muitos comentaristas que, por observarem certas tensões no texto, duvidam da original uniformidade literária de Jó 24, vejo, nesse capítulo uma composição artisticamente construída, semelhante a um edifício bem arquitetado, no qual cada tijolo ocupa seu lugar previsto. As tensões de fato existentes parecem ter sido planejadas pelo poeta, pois assumem, dentro do processo de argumentação em Jó 24, uma função específica. (2)
Seja ainda expressa minha esperança de que, mesmo apresentando apenas o estudo exegético de um único capítulo das Sagradas Escrituras, se tenha, no final da leitura, uma impressão mais abrangente sobre a questão dos pobres na sociedade e na cultura religiosa do Antigo Israel. Na realidade, o estudo mais exato das tradições bíblicas sempre começa com a análise de um primeiro texto, seja o tema que for.

Matthias Grenzer

(1) Esta pesquisa foi preparada para o congresso do grupo dos exegetas veterotestamentários de língua alemã ("Arbeitsgemeinschaft Altes Testament") que teve como tema o livro de Jó e foi realizado em Olomouc, na República Checa, entre os dias 29 de agosto e 1º de setembro de 2005. O texto será publicado, simultaneamente, em alemão, no volume do congresso, com o título: Die Armenthematik in Ijob 24.


(2)Em vista desse tipo de aproximação ao livro de Jó, compare as reflexões metodológicas de K. ENGLJÄHRINGER, Theologie im Streitgespäch, pp. 11-14. Um bom resumo da história de pesquisa referente ao terceiro ciclo de discursos no debate entre Jó e seus amigos (Jó 21-28) apresenta M. WITTE (Vom Leiden zur Lehre, pp. 7-55). Em 2002, houve ainda a publicação da tese doutoral de um autor angolano: B. TCHIMBOTO, Os "privados" de Deus. Como exemplo mais recente para a opinião predominante em relação a suposta incompreensibilidade de Jó 24, veja o estudo de M. KÖHLMOOS (Das Auge Gottes, p. 59): "O texto desse capítulo encontra-se num estado extremamente ruim. A estrutura mostra, de forma repetida, rupturas e incongruências (...). Apesar de todas as tentativas, não se pode ver mais um discurso coerente em Jó 24".

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