Dez anos sem Juan Luis Segundo
Afonso M. Ligorio Soares
A 17 de janeiro de 1996, às 3h20min da madrugada, falecia padre Juan Luis Segundo. Perdíamos, aos 70 anos de idade, um dos fundadores da corrente teológica conhecida como Teologia da Libertação. O volume e a qualidade de suas obras escritas são um testemunho vivo de sua entrega e de sua fé, até hoje reconhecidas e admiradas pelo mundo afora. Muitos de seus amigos mais íntimos viam nele um pensador sério, rigoroso e atrevido.
Em homenagem a ele, Paulinas Editora acaba de lançar a obra coletiva Dialogando com Juan Luis Segundo. Para desfrutá-la como uma verdadeira aula de introdução à teologia segundiana, os textos foram organizados em cinco seções: Gênese, Sistema, Missão, Éschaton e Depoimentos. O que une os artigos é a tentativa de ajudar leitores e leitoras a ir penetrando, aos poucos, no universo das preocupações do teólogo. Desse modo, funcionam como chaves-de-leitura da extensa obra do autor uruguaio, já que, embora fosse um pensador profundamente inserido na caminhada de grupos de base, aliando sua admirável competência científica a uma espiritualidade original e profundamente libertadora, sua obra não é de fácil acesso a um público mais amplo.
Como explicar tal distância entre seu pensamento e as academias teológicas de nosso continente, particularmente do Brasil? Conforme destacam todos os convidados a redigir este livro-homenagem, a obra de Segundo é inestimável e cada vez tem se tornado mais clara a relevância de sua contribuição no panorama teológico. Porém também é notória a liberdade com que ele se desvencilhava dos lugares comuns de seu tempo e a coragem com que os combatia. Alie-se a isso a complexidade que envolvia seus escritos (compreensível, uma vez que as sínteses fáceis nem sempre são as mais enriquecedoras) e o círculo está fechado.
As seções, portanto, assim estão dispostas: em gênese, o teólogo presbiteriano Odair Pedroso Mateus comenta uma etapa quase desconhecida da reflexão do teólogo uruguaio: os escritos universitários, verdadeiros programas de sua produção ulterior. A seguir, a seção sistema traz o trabalho de Ir. Afonso Murad. Reconhecendo em Segundo um visionário, cuja obra antecipa questões e pespectivas que continuam atuais e provocativas, mesmo dez anos após sua morte, Murad propõe-se a analisar seus escritos de forma global e crítica, com a tríplice chave do enfoque, do método e do paradigma. Faz, no entanto, uma leitura em corte sincrônico, que não pressupõe diferenças na evolução do pensamento segundiano.
Missão contém o estudo de Degislando Nóbrega de Lima, que parte do pressuposto de que haja uma criteriologia missiológica subjacente à eclesiologia de Segundo. A partir daí, o autor concentra-se em esclarecer os parâmetros que possibilitam explicitar critérios para a missão da Igreja à luz das criativas intuições do teólogo uruguaio.
Fechando o ciclo de diálogos com o pensamento segundiano, ofereço, na seção éschaton, uma chave para a teodicéia e a escatologia de nosso autor. Retomo a última díade por ele concebida e que veio à luz em sua obra póstuma sobre o dogma do inferno: a tensão entre o absoluto-menos e o absoluto-mais ao longo e no término de nossa existência terrena. No final, alguns depoimentos sobre a relevância do autor, além de trechos do próprio Segundo, encerram a obra.
Isto posto, resta o convite a quem queira saborear a originalidade deste pensador latino-americano: descubra na obra de Segundo sugestões e pistas para as respostas que realmente importam. Este foi o escopo de seu esforço teológico, bem como da melhor reflexão latino-americana: produzir uma teologia que somente deixaria marcas se tivesse sabor de vida.