MORTE E INFERNO: um ponto de vista cristão
Afonso Maria Ligorio Soares[*]
A realidade do sofrimento e da morte foi sempre um espinho para nós humanos. Prova inconteste de nossa pequenez, em confronto direto com nossa ambição de poder e perenidade. A origem e a sobrevivência das religiões até hoje têm muito a ver com o esforço homérico de resolver o enigma de nossa existência.
Para completar e complicar o quadro, as imagens de uma vida futura, vitoriosa sobre a morte terrena, nem sempre ajudaram a aliviar de maneira sadia as angústias do “lado de cá”. Tomemos como exemplo a visão escatológica popularizada pelo cristianismo ao longo de vários séculos. Como dormir tranqüilos, sabendo que, a qualquer momento, Deus poderia nos pegar desprevenidos, e nos arrebatar deste mundo para um destino eterno de torturas e suplícios infernais? Quantos sermões dominicais não incutiram uma miríade de escrúpulos nas pessoas, ameaçando-as com a inexorabilidade do fogo do inferno? Que estrago não foi feito na espiritualidade cristã quando se insistiu na imagem de um Deus severo, vingativo, injusto até, pois, poderia, a seu bel-prazer, escolher a hora de nossa morte, e assim nos predestinar ao céu ou às profundezas do abismo?
Ao longo da história da igreja, o destino final da humanidade foi sempre entendido plasticamente através de duas configurações radicais e extremas: o inferno (frustração e condenação eternas) e o céu (o pleno desabrochar do ser humano). Hoje, os teólogos cristãos encontram-se tão cientes quanto embaraçados pelo dano causado por tais imagens na fé e na vivência das pessoas. Há uma clara tendência a não se falar muito nisso, mas o problema é que, no fundo, continuamos querendo respostas para tais questões.
O jeito, portanto, é encarar o assunto. Já de início deve ficar claro que não se pode confundir as explicações mais difusas entre as pessoas (mesmo entre padres e pastores) com aquilo que faz parte da genuína Tradição cristã. Em segundo lugar, convém ter presente que também a concepção cristã sobre nosso destino após a morte passou por uma segura evolução.
Por isso, convém ter o maior cuidado hermenêutico na utilização de textos bíblicos e de clássicas reflexões teológicas. Quando, por exemplo, os evangelhos colocam na boca de Jesus expressões como “fogo que não se apaga” ou “geena”, “verme que não morre”, “trevas exteriores” e “ranger de dentes”, isso não pode ser confundido com as descrições medievais, dantescas, sobre o inferno. Em nenhum lugar Jesus se serve de tais expressões para responder à pergunta sobre o que é o inferno. Todas as vezes que elas aparecem em seus discursos Jesus está explicando o que é que Deus ama ou odeia na conduta humana.
Isto posto, vamos por partes. Nenhuma dessas imagens bíblicas constitui uma descrição geográfica. Trata-se de uma linguagem simbólica que, como se sabe, quer nos passar um sentido, não uma informação científica. Releia, por exemplo, a conhecida perícope do “Juízo Final” em Mateus 25, 31-46. O centro da mensagem ali é reconhecer qual o critério do juiz divino, a saber, o amor concreto que as pessoas tiverem tido pelo próximo necessitado. O saldo final para os que insistirem na omissão ou nas más ações será “afastar-se de Deus” e “ir para o fogo eterno, nas trevas, com muito choro e ranger de dentes”.
Detenhamo-nos um pouco nessa imagem. Ela comporta aspectos positivos e negativos. O positivo é valorizar o resultado das opções livres de cada ser humano. Quem não amou o irmão nesta vida, na realidade se afastou de Deus. Portanto, após a ressurreição final, continuará afastado (do amor) de Deus. Seu defeito, porém, é que, ao pretender trocar em miúdos o que significa ficar longe de Deus, envereda por uma seqüência de figuras (ser jogados no fogo, trevas, choro) que mais parecem um castigo enviado por um deus vingativo.
O Apóstolo Paulo consegue evitar essa armadilha escolhendo outras imagens para falar do “Juízo Final” (1Cor 3, 10-15). Ele admite que nossas ações na vida terrena são sempre uma mistura de bem e de mal. Não dá para separar os bons e os maus de forma absoluta e definitiva (Rm 7, 25b). Só naquele “Dia” derradeiro se manifestará “o que vale a obra de cada um”. Nossa obra nesta terra passará pelo fogo purificador, que destruirá o que tiver sido fruto do egoísmo e fará entrar na glória aquele cadinho de amor que vier de cada um de nós. Na perspectiva de Paulo, não está em jogo a vida eterna da pessoa, mas antes a perenidade de sua obra terrena.
O IIº Concílio Ecumênico do Vaticano acolhe essa visão paulina na Gaudium et Spes nº 39 quando insiste na idéia de que o sentido da história humana é colaborar com Deus em vista da nova terra e do novo céu, onde entrará tudo aquilo que, por amor, tiver sido gerado neste mundo.
Sumiu o inferno, então? Na verdade, há pelo menos três fortes argumentos contrários à idéia popular de inferno, embora também haja quem admita sua existência com arrazoados igualmente convincentes. É o que veremos no artigo do próximo número.